domingo, 3 de junho de 2012

IDENTIFICADO RECIFE




hoje amanheci domingo
estou cedo pelo Recife deserto
as possibilidades são raras
nesta cidade que eu sou :
o sol do atlântico pode me devorar
ou a chuva do capibaribe me apodrecer.
ninguém transita ou veicula sorrisos
não chega ou se despede ninguém cotidiano
tudo sou eu que parei e descanso mortomente.
a cidade que eu sou entardecerá cinemas
crepusculabrirá bares
travestidas boates sexuais passeios
passagens noite a dentro.
amanhãserei primeiro
segunda feira
dia que te uso e mascateias



(Publicado com ilustração de Abraão Chagorovisky
 no ÁLBUM DO RECIFE, organizado por Jaci Bezerra
e Sylvia Pontual - Prefeitura da Cidade do Recife, PE, 1987)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya  
- Panamérica Nordestal Editora, Recife (PE), 2010.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A CRIAÇÃO DOS HOMENS




O poeta toca as palavras,
magia que toca as pessoas.
Há uma multidão em sua fala.
As palavras germinam,
crescem, andam, ardem, crepitam
e fenecem. E todos os dias ressuscitam.
Como ressuscitamos.
Com um sopro e um sol pronunciado.
As palavras animam-se completamente
e nuas ou bem ou mal vestidas
vivem e fazem parte
do universo das horas.
Vão para além, numa viagem
cedo ou nunca interrompida.
As palavras são pétalas,
carne, espírito e luz.
O cheiro próprio, a sonoridade única,
o modo inconfundível, o gesto inteiro,
o gosto pleno, o corpo aberto,
a presença exata,
a palavra não foi, nem poderia ser, nem será,
a palavra é apenas o que é. 
E a sua residência não é a terra,
nem a infinita cidade das galáxias,
ou os tratados, as gramáticas
e os tumulares dicionários :
é o interior do coração.  


(da antologia POETAS DOS PALMARES
- Fundarpe / Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes /
Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho,
Recife, Palmares, 1987)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya  
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

domingo, 15 de abril de 2012

PALMARES

à vida de Givanilton Mendes.



A cidade tem uma vontade asfixiante
que assoma inteira e exerce o seu domínio
sobre todos, vítimas vencidas.
É negra e rija, de músculos tentaculares
e uma história de desprezo sobre os homens
arrotada por mil cantos.
Corre sangue sempre verde em seus lugares
- um rio que não aplaca a sede,
não alimenta e nem apodrece.
Um rio desgovernado, de rumos sabidos,
sempre voragem, vertiginosa viagem.
Águas mortas sem margem
de negruras profundas que vêm de longe
fecundam registros e lendas
fantasiando trombetas pauis pirangis abreus...
Há muitos ébrios perdidos
pelas ruas silenciosas e tristes
invertidos com a bebedeira de tardes noites.
Rebeliões sufocadas, revelações
castradas e reencarnações multiplicadas
na indigência e em cada dor.
Deuses malditos perambulam, ambulantes,
em seu mercado público de sortes e desgraças.
E todos os dias são sempre indiferentes :
tanto faz a vida, tanto faz a morte.



(Da antologia POETAS DOS PALMARES
- Fundarpe / Secretaria de Turismo, Cultura
e Esportes / Fundação Casa da Cultura
Hermilo Borba Filho, Recife, Palmares, PE, 1987)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

sexta-feira, 30 de março de 2012

PATERNIDADE

para José Terra, João Guarani e Mariama.


nada sou, nem tenho, nem serei jamais.
e vocês herdarão de mim apenas o que escrevo.
é muito pouco.
toda uma vida por isso vale a pena?
espero que as suas almas não sejam pequenas.
o que fiz a mais foi chamá-los para este mundo,
ao lado da companheira e mãe que em mim acreditou
e que revelou comigo os seus nomes.
o que escrevo é o que vivo.
estou nas palavras e nos livros,
nas ruas dos meus passos,
nos ventos dos meus caminhos,
nas terras das minhas fantasias
e nos céus eternos das cidades.
gosto de mim, me amo inteiramente,
e tenho, por vocês, pela mulher
que é minha verdadeira companheira,
pela minha pequeníssima vida,
um imenso orgulho de mim.
é só o que posso lhes dizer ? sim.
- amem, amem-se, amem para sempre o amor.



(Da antologia POETAS DOS PALMARES,
organizada por Juareiz Correya
- 2a. edição, Palmares / Recife, 1987)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

sexta-feira, 9 de março de 2012

REVISÃO DE HERMILO (*)

Os caminhos da solidão
pelo sol das almas iluminados
se estendem, começo do sem fim
à margem das lembranças
onde o Cavalheiro da Segunda Decadência passeia.
E sem medo ele abre
- boca do céu, fundo do inferno -
a porteira do mundo
para as alegrias e tristezas e assombros
d' o cavalo da noite
na mata dos homens.
Grave, solene e miserável
um deus no pasto se envenena azul.
Na hora certa, na hora-Agá
a vida é esta nudez.
O general está pintando
sete dias a cavalo
.
E agora vejam as meninas do sobrado
por onde somos,
além & aquém do Una
gloriosos e derrotados
os ambulantes de Deus.

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(*)Poema-colagem, onde se destacam, em negrito,
títulos dos livros de ficção
publicados por Hermilo Borba Filho.


(Da antologia POETAS DOS PALMARES, 2a. edição,
organizada por Juareiz Correya, publicação da
Fundarpe/Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes/
Fundação Casa da Cultua Hermilo Borba Filho,
Recife/Palmares,PE, 1987)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya.
- Panamerica Nordestal, Recife, PE, 2010

sábado, 11 de fevereiro de 2012

GÊNESIS

no dia da criação
o amor me fez
- céu
e te fez
- terra
e vendo que em nós
a vida havia gerado
ele se transformou
na mulher que tu és
e no homem que eu sou
e para sempre
se eternizou



(Da antologia POETAS DOS PALMARES, 2a. edição,
organizada por Juareiz Correya
- Fundarpe / Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes /
Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho,
Recife/Palmares,PE,1987)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

sábado, 28 de janeiro de 2012

A NOVA POSE DE REAGAN




Mais uma vez te apossas da América.
Mais uma vez te transformas
em Águia sanguinária do Ocidente,
tu, Ronald Reagan,
que em toda a tua vida
não passaste nunca
de um caubói de segunda categoria.

Hoje, novamente conduzido
pelas mãos cegas dos teus eleitores,
imundos racistas imperialistas,
tu projetas o sonho americano
do reino soberano dos Estados Unidos
sobre toda a Terra.

De fato, reinarás,
porque a América mais uma vez
estremece inteira.
As nações de todo o mundo estremecem
porque tu tens o Poder
de possui-lo.

Mas alguma coisa está mudando
em ti, e em teu glorioso Poder.
Distante do mundo e dos homens
que em nome do teu povo assassinas e silencias,
tu ensaias a nova posse,
fazendo a pose de uma cerimônia circense,
e te armas com foguetes anti-mísseis,
batalhões de soldados contra-terroristas,
além da super-proteção
de muralha à prova de bala,
colete de cristal
e limusine blindada.

Tu não és apenas o velho caubói
que volta a possuir a América
e a ameaçar o mundo inteiro
com as tuas armas
- eternos brinquedos.

Tu também tens cu,
tu também tens medo.



(Olinda, 20/janeiro/1985)

- Do livreto AMÉRICA INDIGNADA,
de Juareiz Correya (Brasil)
e Hector Pellizzi (Argentina),
Panamerica, São Paulo, SP, 1986


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010